ATIVOS DO CAMPO
Maio / 2026
Preços Elevados, mas Margens Pressionadas pelo Elevado Custo de Produção

Projeto Campo Futuro
Monitoramento econômico e gerencial das principais cadeias produtivas do agronegócio brasileiro.
CNA / Senar
Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil · Serviço Nacional de Aprendizagem Rural.
Cafés
Contexto de Mercado: Ciclo de Alta e Correção de Preços

O mercado internacional de café viveu, ao longo de 2024 e início de 2025, um dos ciclos de alta mais expressivos das últimas décadas. O contrato C de Nova York, referência para o arábica, alcançou o patamar de 413 USc/lb em outubro de 2024, impulsionado por sucessivos problemas climáticos nas principais zonas produtoras brasileiras, pelo fortalecimento do dólar e por uma demanda global resiliente. O contrato Robusta de Londres acompanhou o movimento, atingindo USD 4.865/t no mesmo período. Para o produtor brasileiro, esse ambiente de preços excepcionais traduziu-se em receitas brutas historicamente elevadas, que em muitos casos compensaram a trajetória ascendente dos custos de produção verificada desde o biênio 2021/2022.
Entretanto, ao longo do primeiro semestre de 2026, os preços internacionais recuaram de forma significativa. O contrato C registrou queda de 25,2% no período de 12 meses encerrado em maio de 2026, situando-se em 281 USc/lb, enquanto o Robusta acumulou retração de 28,0% na mesma janela, recuando para USD 3.504/t. Essa correção, embora esperada após um ciclo de alta prolongado, ocorre em momento particularmente delicado para a cadeia produtiva: justamente quando o produtor ingressa na janela de aquisição de fertilizantes para a safra 26/27 — prevista para os meses de agosto e setembro —, os preços desses insumos encontram-se em patamar substancialmente mais elevado do que no ciclo anterior.
Contrato C — Nova York (Arábica)
Pico de 413 USc/lb em outubro de 2024. Recuo de 25,2% nos 12 meses encerrados em maio de 2026, situando-se em 281 USc/lb.
Contrato Robusta — Londres
Pico de USD 4.865/t em outubro de 2024. Retração de 28,0% na mesma janela, recuando para USD 3.504/t.
Ureia Granular FOB Oriente Médio
Pico de USD 850/t em abril de 2026, alta de praticamente 100% sobre o patamar de USD 381/t de maio de 2025. Recuo parcial para ~USD 760/t em maio.
Oferta
Pressão da Oferta: Safra Recorde e Timing Crítico

Esse cenário de recuo de preços é ainda reforçado pelo lado da oferta. Segundo o primeiro levantamento da Conab para a safra 2026, divulgado em fevereiro deste ano, a produção brasileira de café está estimada em 66,2 milhões de sacas beneficiadas, crescimento de 17,1% sobre a safra anterior e de 22,1% em relação à safra 2024. O resultado reflete a conjugação de bienalidade positiva na maior parte das regiões produtoras, condições climáticas mais favoráveis e expansão de área. A colheita, com início em abril e pico previsto entre maio e julho, tende a pressionar adicionalmente as cotações no curto prazo — precisamente o período em que os produtores iniciarão as tratativas para aquisição de fertilizantes para o ciclo 26/27, tornando ainda mais crítica a gestão do momento de compra.
66,2M
Sacas Beneficiadas
Estimativa Conab para a safra 2026 (fevereiro de 2026)
+17,1%
Crescimento Anual
Sobre a safra anterior
+22,1%
vs. Safra 2024
Expansão acumulada em dois ciclos
~100%
Alta da Ureia
Variação da ureia granular FOB Oriente Médio entre mai/2025 e abr/2026
A ureia granular FOB Oriente Médio, base de referência para fertilizantes nitrogenados, principal grupo utilizado na cafeicultura, atingiu em abril de 2026 o pico da série analisada, cotada a USD 850/t — o que representa alta de praticamente 100% em relação ao patamar de USD 381/t verificado em maio de 2025. Mesmo com leve recuo nas primeiras semanas de maio, o insumo segue negociado em torno de USD 760/t — patamar que, convertido aos custos de produção por saca, representa uma pressão inédita sobre o COE da atividade. Esse movimento assimétrico — queda de receita combinada com elevação de custos — configura o que se pode chamar de "tesoura de margens": enquanto o produtor que colheu a safra 24/25 ainda capturou os benefícios dos preços elevados, aquele que adquirir insumos para o próximo ciclo o fará em condições de custo significativamente piores, sem a garantia de que os preços do café se recuperem no mesmo ritmo.
Dados Primários — Campo Futuro
Rentabilidade por Sistema de Produção — Safra 24/25

Os dados primários do Campo Futuro, levantados junto a produtores em 20 municípios cafeicultores na safra 24/25, evidenciam que mesmo no cenário atual de preços — ainda relativamente elevados em termos históricos —, a rentabilidade da atividade é heterogênea e, em vários casos, frágil. Considerando a margem líquida (ML), calculada como a diferença entre o preço recebido e o custo operacional total (COT), três das 20 localidades pesquisadas já registram resultado negativo, enquanto outras cinco apresentam ML inferior a R$ 200/sc — margem praticamente nula frente a qualquer oscilação de custo ou de preço. A tabela a seguir sintetiza os resultados médios por sistema de produção.
Análise por Sistema
Leitura dos Resultados por Sistema Produtivo

Entre os sistemas produtivos, o mecanizado apresenta a melhor ML média (R$ 677/sc), favorecido por maior escala e menor custo operacional por unidade produzida. O sistema manual, predominante nas regiões de montanha do Sul de Minas e da Zona da Mata, exibe a maior dispersão, com municípios que ainda alcançam margens expressivas ao lado de outros que já operam no limite da viabilidade econômica. O segmento de Conilon e Robusta, concentrado no Espírito Santo e em Rondônia, opera com ML média de apenas R$ 90/sc, exposto de forma mais direta a qualquer variação de custo dado o menor patamar de preços praticado nessas praças. Vale observar que os fertilizantes representam, em média, 21,5% do COE nas áreas pesquisadas, com participação variando de 13% a 32% conforme o município e o sistema de produção — o que significa que oscilações nesse item têm impacto direto e relevante sobre a rentabilidade da atividade.
Arábica Mecanizado
Melhor ML média: R$ 677/sc. Favorecido por maior escala e menor custo operacional por unidade produzida.
Arábica Manual
Maior dispersão entre municípios. Predominante nas regiões de montanha do Sul de Minas e da Zona da Mata. Municípios com margens expressivas convivem com outros no limite da viabilidade.
Conilon / Robusta
ML média de apenas R$ 90/sc. Concentrado no Espírito Santo e em Rondônia. Exposição direta a variações de custo dado o menor patamar de preços praticado nessas praças.
Participação dos Fertilizantes no COE
Em média 21,5% do COE, variando de 13% a 32% conforme município e sistema de produção. Oscilações nesse item têm impacto direto e relevante sobre a rentabilidade.
Projeção de Cenários
Projeção de Cenários para a Safra 26/27

Com base nas matrizes de custo do Campo Futuro e nas tendências recentes de preços, foram simulados cenários que combinam variações no preço de venda do café com diferentes hipóteses de elevação do custo dos fertilizantes. A lógica da simulação parte do COT da safra 24/25 como referência, incorporando o impacto percentual da alta dos fertilizantes sobre o COE, mantendo os demais componentes de custo constantes. O preço do café é ajustado a partir do valor de referência coletado pela equipe do Campo Futuro em abril/maio de 2026.
A matriz abaixo apresenta o número de municípios que passariam a operar com ML negativa em cada combinação de cenário. A codificação por cor indica o nível de risco: verde para até 3 municípios negativos (situação próxima à atual), âmbar para 4 a 6 (alerta) e vermelho para 7 ou mais (deterioração generalizada).
Leitura dos Cenários
Assimetria de Risco e Ponto de Inflexão

Os resultados revelam uma assimetria importante: mesmo sem qualquer redução adicional no preço do café, uma alta de 20% nos fertilizantes em relação ao patamar atual já seria suficiente para elevar para cinco o número de localidades com ML negativa. Se combinada a uma queda de 10% no preço do café — hipótese plausível dado o nível atual dos contratos futuros —, esse número salta para oito municípios, comprometendo sistematicamente a rentabilidade de regiões que atualmente operam com margem estreita. No cenário mais adverso considerado — queda de 20% no café com alta de 30% nos fertilizantes —, onze municípios registrariam resultado negativo, o que representaria uma ruptura significativa da viabilidade econômica em parcela expressiva das áreas pesquisadas.
Cenário de Alerta
Alta de +20% nos fertilizantes, preço do café estável → 5 municípios com ML negativa. Alta de +10% nos fertilizantes com queda de -10% no café → 6 municípios comprometidos.
Cenário de Deterioração
Queda de -10% no café combinada com alta de +20% nos fertilizantes → 8 municípios com resultado negativo.
Cenário Mais Adverso
Queda de -20% no café com alta de +30% nos fertilizantes → 11 municípios com resultado negativo. Ruptura significativa da viabilidade econômica em parcela expressiva das áreas pesquisadas.
Orientações
Orientações ao Produtor: Gestão no Ciclo 26/27

A análise aponta para um momento de inflexão na rentabilidade da cafeicultura brasileira. O produtor que colheu resultados positivos na safra 24/25 — beneficiado por preços excepcionalmente altos — ingressa no ciclo 26/27 diante de um quadro de custos estruturalmente mais elevados, sem a contrapartida de preços de mercado que justifiquem essa pressão. A tomada de decisão sobre o momento e o volume de aquisição de fertilizantes torna-se, portanto, um fator crítico de gestão para a próxima safra.
Compra Antecipada de Fertilizantes
Estratégias de compra antecipada ganham relevância crescente nesse contexto, aproveitando janelas de preço antes de novas pressões de mercado.
Contratos com Travas de Preço
Negociação de contratos com travas de preço para insumos, reduzindo exposição à volatilidade cambial e às oscilações do mercado de fertilizantes.
Diversificação de Fontes de Fornecimento
Diversificação de fontes de fornecimento de insumos como estratégia de redução de risco e fortalecimento do poder de negociação do produtor.
Monitoramento Contínuo de Custos e Rentabilidade
O monitoramento contínuo dos indicadores de custo e rentabilidade, como o realizado pelo Campo Futuro, constitui ferramenta essencial para antecipar movimentos e subsidiar decisões de política setorial.
Perspectiva Sistêmica
Considerações Finais

Do ponto de vista sistêmico, a situação reforça a necessidade de instrumentos de apoio à gestão de risco na cafeicultura — tanto no âmbito privado quanto nas políticas públicas voltadas ao setor. A predominância de pequenos produtores, a dependência de insumos importados e a exposição cambial compõem um conjunto de vulnerabilidades estruturais que tendem a ampliar o impacto de ciclos adversos sobre o produtor, sobretudo nos sistemas de menor escala. O monitoramento contínuo dos indicadores de custo e rentabilidade, como o realizado pelo Campo Futuro, constitui ferramenta essencial para antecipar esses movimentos e subsidiar decisões de política setorial.
"A tomada de decisão sobre o momento e o volume de aquisição de fertilizantes torna-se um fator crítico de gestão para a próxima safra. Estratégias de compra antecipada, negociação de contratos com travas de preço e diversificação de fontes de fornecimento ganham relevância crescente nesse contexto."
Informações Institucionais

Realização
  • Projeto Campo Futuro
  • CNA – Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil
  • Senar – Serviço Nacional de Aprendizagem Rural
Elaboração Técnica
  • CIM — Centro de Inteligência em Gestão e Mercados / DGA-UFLA
Cadeia Produtiva
  • Café
Referência
  • Safra 24/25 — Campo Futuro
  • Maio de 2026
Uso e Reprodução
Reprodução permitida desde que citada a fonte: Projeto Campo Futuro – CNA/Senar. Elaboração: CIM/UFLA.